terça-feira, 19 de junho de 2012

A culpa é do "mordomo"


 Um debate de extrema complexidade exaspera chefes de Estado e a diplomacia de países de todos os continentes presentes à Conferência Rio +20. Países pobres e em desenvolvimento defendem, com justa razão, que os custos bilionários do período de transição rumo a uma economia de baixo carbono sejam bancados pelos EUA e pelas economias mais fortes da Europa. Os ricos, mesmo carregando a responsabilidade histórica de terem destruído suas florestas e continuarem liderando a emissão de CO2, se negam a assumir esse ônus. Se esse já foi o nó da questão em Kioto, Rio 92 e Cope-15, imaginem agora que a crise financeira internacional faz estragos nas economias da Zona do Euro e a economia americana patina ? Isso sem falar nos interesses específicos de cada um dos cento e tantos países presentes à Rio + 20. Contudo, a velha mídia, fiel à sua proverbial mediocridade de viés partidarizado, já decretou : se as negociações visando a elaboração de um documento final abrangente, com foco e metas definidas, fracassarem, a culpa é do Itamaraty.

Como leigo, fico imaginando as dificuldades para o avanço das negociações, dado ao emaranhado de interesses imbricados, às vezes comuns, muitas outras conflitantes, próprias desse tipo de conferência global. A equipe de negociadores brasileiros, diga-se de passagem composta por embaixadores do mais alto nível, quer colocar, por exemplo, a questão da erradicação da pobreza no centro do documento final. Mas os ricos não concordam. Os países pobres e em desenvolvimento exigem compromisso claros de redução de emissão por parte das maiores e mais pujantes economias. Estas se esquivam e exigem contrapartidas inexequíveis por parte dos que precisam resgatar sua enorme dívida social e gerar empregos.

É preciso construir consensos ainda sobre uma infinidade de outros aspectos, que vão do incentivo à manutenção e criação de novas áreas de preservação à proteção de populações vulneráveis como ribeirinhos, indígenas, quilombolas; da punição dos que não cumprirem metas de redução de gás carbônico a políticas de formalização do trabalho ao redor do planeta; da disseminação das novas tecnologias de baixo carbono à necessidade de salvar os oceanos e os mananciais de água; da ampliação das matrizes energéticas limpas à luta contra o desmatamento e as queimadas.

As contradições, portanto, são enormes e, em muitos casos, insanáveis. Por isso, não será nenhuma surpresa se os impasses não forem superados e o documento final não passar de um protocolar tratado de boas intenções, sem foco, metas definidas, punições, cronograma rígido de redução de emissões, etc. Assim, o texto acaba valendo mais pelo aspecto político, como instrumento de pressão e mobilização, a partir de seus pontos positivos e negativos, omissões, frouxidão, ou a pouco ou muita ênfase que ele dê ao social. O que a mídia não consegue enxergar é que esse tipo de conferências vale por mobilizar corações e mentes, por aumentar o nível de consciência social e ambiental das pessoas, por colocar em xeque o desperdício, a destruição do planeta, por mostrar o quanto é falsa a oposição entre crescimento econômico e sustentabilidade, por levantar premissas ao desenvolvimento sustentável como o trabalho decente.

Daí a importância da Cúpula dos Povos, uma miríade, uma rede enorme de ONGs, entidades feministas e ambientalistas, centrais e confederações sindicais, partidos políticos, movimento sociais de todos os matizes e procedentes de uma infinidade de países. Ou seja, é a sociedade pulsando pela salvação do planeta. O que acontece no Aterro do Flamengo expressa como a discussão sobre desenvolvimento sustentável ganhou espaço político no mundo inteiro.

Acabo de assistir à edição do Jornal Nacional desta terça-feira (18/6), dia em que o Rio de Janeiro foi palco da maior manifestação de mulheres das últimas décadas. Mas o JN de hoje, além de mostrar apenas imagens frias do início da passeata, dando a impressão que era coisa de um grupo reduzido e radicalizado de mulheres, deu destaque absoluto a um sujeito engravatado correndo pelo Aterro para não perder o avião no aeroporto Santos Dumont. É essa a cobertura que merece um evento que reuniu 10 mil mulheres, segundo a Polícia Militar ? É para isso que serve a “liberdade de expressão” tão cara às poucas famílias que controlam a radiodifusão no Brasil.

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