quarta-feira, 14 de agosto de 2013

Black Bloc revolucionário é a comédia do ano

Até quando alguns intelectuais progressistas vão continuar enxergando impulsos anticapitalistas e revolucionários numa horda de vândalos mascarados e reacionários até a medula ? Até quando publicações contra-hegemônicas da imprensa brasileira, como CartaCapital, vão dedicar capa e generosos espaços para analisar o fenômeno Black Bloc, a partir de enfoques risíveis, segundo os quais o grupo cuida da defesa das manifestações e ataca símbolos capitalistas ? Até quando a sociedade vai tolerar a destruição do patrimônio público e privado, por parte de gente que nem coragem para mostrar o rosto tem ? Até quando ruas e avenidas continuarão sendo bloqueadas sem aviso prévio e um mínimo de racionalidade, prejudicando quem volta do trabalho estafado ou leva um filho para um atendimento médico de urgência ? Até quando formadores de opinião seguirão glamourizando uma turba que prega a intolerância e rejeita a democracia ? Até quando os presos políticos do passado serão ofendidos e desrespeitados quando, numa comparação absurda, se pede liberdade para os presos "políticos" das manifestações de 2013 ?

Esse script, infelizmente, vai ganhando contornos de uma triste comédia tupiniquim, em cujos atos sobram mistificações, oportunismo político barato, omissões e mentiras a rodo. Examinemos primeiro a questão da violência, do enfrentamento entre os manifestantes e a polícia. No Rio de Janeiro, com toda a certeza, a quase totalidade dos confrontos são provocados deliberadamente pelos mascarados fascistas. Isso, é claro, não torna menos condenáveis os excessos da polícia e sua reação truculenta e despreparada, muitas vezes se voltando contra manifestantes pacíficos e até não manifestantes.

Mas o que me proponho a fazer é analisar os fatores que vêm detonando a violência. É preciso saber, por exemplo, se os mascarados esperavam ser recebidos com flores pela polícia quando tentaram invadir os estádios de futebol na Copa das Confederações ? Que polícia do mundo deixaria de garantir o direito dos que pagaram para assistir a uma partida de futebol ? Ou dos jogadores de exercerem suas profissões ? Pois todos os embates que ocorreram por ocasião da Copa das Confederações se deram depois que os revolucionários de araque tentaram romper o cordão de isolamento feito pela polícia para proteger os estádios.

Mais : que polícia do mundo cruzaria os braços diante de ameaças de invasão a sedes de governo ? Já está virando rotina entre nós, cariocas, as tentativas, ou consumação, de invasões do Palácio Guanabara, da sede da prefeitura, da Alerj ou da Câmara dos Vereadores. Não por acaso todas as manifestações seguem pacíficas até o momento em que integrantes do Black Bloc forçam a entrada nesses prédios públicos. Quem delira de febre esquerdista infantil pode até vibrar com a depredação das sedes dos poderes, mas os que mantêm um mínimo de bom senso sabem que nessas situações não resta outra alternativa à polícia a não ser a repressão.

Os que veem os mascarados como revolucionários batem na tecla de que o Black Bloc ataca os símbolos do capitalismo, como os bancos. Mas desde quando equipamentos públicos urbanos depredados com frequência como orelhões, placas, sinas de trânsito e pardais de velocidade são emblemas da opressão do capital ?

Fora do discurso fácil, chique e politicamente correto de culpar a polícia por tudo, a realidade é bem outra. Muitos conflitos só tiveram início no momento em que policiais foram atingidos por coquetéis molotov  ou pedradas. Outra coisa patética é o chiqueiro revolucionário em que se transformou a acampamento em frente à casa do governador Sérgio Cabral, no Leblon. Que direito tem moçoilas e rapazotes de montar um acampamento, uma pocilga suja e fedorenta, em plena via pública ? E o mais ridículo é a saudação de apoio, através de buzinaço, de inúmeros motoristas  (muitos a bordo de carrões luxuosos) que passam pelo local. Queria ver se fosse em frente à casa deles.

É preocupante a leniência das pessoas, da mídia e das autoridades diante de tudo isso.Convivência democrática não pode ser confundida com permissividade e esculhambação. Para parecer moderna e antenada, a classe média não está nem aí. É bom lembrar que aquele estouro espontâneo das ruas em junho já deu lugar, pelo menos no Rio, a movimentos mais tópicos e pontuais, mas visivelmente orquestrados politicamente. O governo Sérgio Cabral tem inúmeros defeitos e merece críticas duras. Das evidências de mau uso do dinheiro público a seguidas decisões tomadas de costas para o interesse da população, da insistência em governar sem dar espaço para a participação popular ao deslumbramento com as mordomias do poder, muitos caminhos levaram Cabral a se colidir com a sociedade.

Mas alto lá. Há um exagero colossal nisso tudo, uma flagrante desproporção. Cabral está sendo tratado como se fosse um fascínora, um ditador saguinário, um genocida. Por trás desse clima de radicalização insana, partidos de ultraesquerda, carentes de voto e de expressão social e política, apostam, por puro oportunismo político, na manutenção dessa atmosfera de pré-ruptura institucional. A quem interessa um parlamento municipal que se vê forçado a cancelar sessões por estar ocupado por militantes do PSOL e do PSTU ? A quem interessa que grupelhos resolvam impasses no grito, acima das instituições ?

Baderna e vandalismo como métodos de ação política são coisas de quem não crê na democracia como valor universal. Me inclua fora dessa.





4 comentários:

  1. Assino embaixo, amigo Bepe.
    Abração, saudades,
    Flavinho Aniceto.

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  2. perfeita sua análise
    concordo com cada letra, com cada frase

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