quarta-feira, 21 de maio de 2014

Greves, politicagens, locautes e chantagens

Ouvi esses dias de uma amiga professora da rede pública municipal  de ensino do Rio a seguinte avaliação sobre mais uma greve convocada pelo sindicato da categoria, o Sepe : "Essa greve a gente pode chamar de greve Copa do Mundo." Ela se referia a uma greve sem pé nem cabeça, deflagrada pouquíssimo tempo depois de uma paralisação de mais de 70 dias. O movimento tem a clara intenção de contribuir para a disseminação de um clima anticopa, sonho dourado de dez entre dez esquerdistas brasileiros. Decididamente, não compartilho da visão mecanicista e dogmática de que toda greve é justa porque opõe capital e trabalho, governos e servidores. É preciso separar o joio do trigo. A greve dos rodoviários de São Paulo, por exemplo, deixou um rastro de evidências de que foi turbinada por um locaute de empresários de ônibus, como denuncia o jornalista Rodrigo Vianna, no blog Escrevinhador.

Mas, se os donos dos ônibus da capital paulista se julgam no direito de retirar os veículos das ruas, deixando milhões de pessoas aos Deus dará, para pressionar a prefeitura por aumento de tarifa, os policiais federais não ficam muito atrás no quesito inconsequência. Integrantes de uma carreira de Estado encorpada, valorizada e bem remunerada, avisam que, caso suas reivindicações não sejam atendidas, cruzarão os braços por tempo indeterminado na véspera da Copa do Mundo, alheios a todos os estragos que esse gesto tresloucado pode causar ao país.

 Ora, se suas reivindicações revestem-se de tanta justiça, por que não se mobilizaram antes, chegando mesmo à greve, na luta por salários ainda melhores. Em vez disso, optaram pela chantagem explícita, usando a Copa da forma mais rasteira.

Aliás, surfar na onda da chantagem virou mania nacional. Muitas corporações esfregam as mãos e adotam uma estratégia tão simplória quanto insana, segundo a qual a Copa é a oportunidade de ouro para a conquista de todas as suas demandas históricas, a panaceia de todos os problemas. E tome reivindicações. Das justas e legítimas às mais estapafúrdias e bizarras. Eu pergunto : dá para levar a sério movimento grevista que pede 40%, 50%, 60% de aumento ? Ou 80% como a Polícia Civil está exigindo em alguns estados ? Daqui a pouco vai ter gente pedindo a revogação da lei da gravidade.

 É razoável que grupos de gatos pingados com 30 pessoas fechem vias expressas vitais dos grandes centros e virem pelo avesso a vida de quem precisa trabalhar, estudar ou levar um filho ao pronto socorro ? E o quebra-quebra dos ônibus ? Que relação esse tipo de ação guarda com os interesse público ?

Algumas greves dão o que pensar. É o caso da dos vigilantes do Rio, cujo sindicato é comandado há séculos por uma notório pelego chamado Bandeira, que sempre fez questão de passar bem longe do movimento sindical mais atuante e combativo. Pois não é que o Bandeira hoje lidera uma greve radicalizada da categoria, exigindo "salários padrão Fifa", os quais só serão alcançados, segundo o sindicato, com uma reajuste de 50% ?

Mas nem tudo é porralouquice nesta temporada de banalização das greves. Merece aplausos, por exemplo, a inclusão do  fim da  absurda dupla função motorista-cobrador no topo da pauta de reivindicações dos rodoviários dissidentes do Rio que lideram o movimento.

O fato é que greve sem pauta minimamente racional e exequível, sem estratégia de negociação, sem tentar trazer a sociedade para o seu lado, e não afastá-la, tem encontro marcado com a derrota. Pior ainda quando são manipuladas por interesses político- eleitorais. Aí, para além da derrota, marcham para o cadafalso da desmoralização.

Em tempo  : vai ter Copa e vamos ganhar,


Um comentário:

  1. Maria Eduarda Quiroga Fernandes23 de maio de 2014 20:02

    Bepe queria que existissem mais jornalistas como você!
    Adorei me ver fazendo parte de suas reflexões.

    #vaitercopa

    O prefeito Eduardo Paes e sua nova secretina de Educação mais do mesmo, precisam parar de inventar a roda e implementar o 1/3 nos moldes do governo federal, como é no Pedro II por exemplo. O SEPE precisa ter estratégia de negociação, como você disse e parar de empurrar a greve para chegar na copa.

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